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01/Setembro/2011:
SOBRE
DEUSES E REZAS RUBEM ALVES
- do livro "O Deus que Conheço -
"
Perdida no meio dos viajantes que enchiam o aeroporto, ela era uma figura
destoante. A roupa largada, os passos pesados, uma sacola de plástico
pendurada numa das mãos esses sinais diziam que ela não
mais ligava para sua condição de mulher: não se
importava com ser bonita. Pensei mesmo que se tratava de uma freira.
Seu comportamento era curioso: dirigia-se às pessoas, falava
por alguns momentos e, como não lhe prestassem atenção,
procurava outras com quem falar. Quando vi que tinha uma bíblia
na mão, compreendi tudo: ela se imaginava possuidora de conhecimentos
sobre Deus que os outros não possuíam e tratava de salvar-lhes
a alma.
Meu
caminho me obrigou a passar perto dela e, quando olhei de perto
para o seu rosto, levei um susto: eu o reconheci de outros tempos, quando
era uma moça bonita que ria e brincava e para quem olhávamos
com olhares de cobiça.
Não
resisti e chamei alto o seu nome. Ela se espantou, olhou-me com um olhar
interrogativo, não me reconheceu. Com razão. Os muitos
anos deixaram suas marcas no rosto.
-
Eu sou o Rubem !
Seu
rosto se iluminou pela lembrança, sorriu, e pensei que poderíamos
nos assentar e conversar sobre a vida. Mas sua preocupação
com a minha alma não permitia essas perdas de tempo com conversa
fiada. E ela tratou de verificar se o meu passaporte para a eternidade
estava em ordem:
-
Você continua firme na fé ?
- Mas de jeito nenhum. Então você deixou
de ler a Bíblia ? Pois lá está dito que Deus é
espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento
que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos
leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não
pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras.
Você já viu uma pipa firme ? Pipa firme é pipa no
chão, não voa. Pois eu estou mais é como urubu,
lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento
Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos.
Ela ficou perdida acho que nunca
havia ouvido resposta tão estranha. Mudou de tática e
tentou pegar a minha alma do outro lado. Desatou a falar de Deus, informou-me
que ele é maravilhoso etc. etc. etc., como se estivesse no púlpito
em celebração de domingo.
Refuguei e disse:
- Acho que quem não está firme em Deus
é você. Olha, passei a noite toda respirando, estou respirando
desde que acordei, e juro que agora é a primeira vez que penso
no ar. Não pensei nem falei no ar porque somos bons amigos. Ele
entra e sai do meu corpo quando quer, sem pedir licença. Mas
a história seria outra se eu estivesse com asma, os brônquios
apertados, o ar sem jeito de entrar, ou como naquele anúncio
antigo do xarope Bromil, o coitado do homem sufocado por uma mordaça,
gritando pelo ar que lhe faltava. Por via das dúvidas, até
andaria com uma garrafa de oxigênio na bagagem, para qualquer
emergência.
E continuei:
- Pois Deus é como o ar. Quando a gente está
em boas relações com ele, não é preciso
falar. Mas, quando a gente está atacado de asma, então
é preciso ficar gritando pelo nome dele. Do jeito como o asmático
invoca o ar. Quem fala com Deus o tempo todo é asmático
espiritual. E é por isso que anda sempre com Deus engarrafado
na Bíblia e em outros livros e coisas de função
parecida. Só que o vento não pode ser engarrafado...
Aí ela viu que minha alma estava perdida mesmo
e, como consolo, fez um sinal de adeus e disse que oraria muito por
mim. Então eu protestei, implorei que não o fizesse. Disse-lhe
que eu tinha medo de que Deus ficasse ofendido. Pois há rezas
e orações que são ofensas. É óbvio:
se vou lá, bater às portas de Deus, pedindo que ele tenha
dó de alguém, estou lhe imputando duas imperfeições
que, se fosse comigo, me deixariam muito bravo.
Primeiro, estou dizendo que não acredito no amor
dele. Deve ser meio fraquinho, sem iniciativa, preguiçoso, à
espera do meu cutucão. Se eu não der a minha cutucada,
Deus não se mexe. E isso não é coisa de ofender
Deus ? Segundo, estou sugerindo que ele deve andar meio esquecido, desmemoriado,
necessitando de um secretário que lhe lembre suas obrigações.
E trato de, diariamente, apresentar-lhe a sua agenda de trabalho. Mas
está lá, nos salmos e nos evangelhos, que Deus sabe tudo
antes que a gente fale qualquer coisa. Ora, se a gente fica no falatório,
e porque não acredita nisso. Não acredito em oração
em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração
em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio
do silêncio.
Voltei à minha amiga:
- Veja você. Tenho um filho que estudava longe.
Eu gostava dele. Ele gostava de mim. De vez em quando a gente se falava
ao telefone. E o dinheiro da mesada ia sempre, com ou sem telefonema.
Agora imagine: de repente começo a receber telefonemas dele três
vezes por dia e mensagens por sedex, cartas e telegramas louvando o
meu amor, agradecendo a minha generosidade... Você acha que isso
me faria feliz ? De jeito nenhum. Concluiria que o meu pobre filho havia
endoidecido e estava acometido de um terrível medo de que eu
o abandonasse. Pois é assim mesmo com Deus: quem fica o dia inteiro
atrás dele, com falatório, é porque desconfia dele.
Mas o pior é o gosto estético que assim se imputa a Deus.
Uma pessoa que gosta de passar o dia inteiro ouvindo os outros repetir
as mesmas coisas, as mesmas palavras, as mesmas rezas, pela eternidade
afora, não deve ser muito boa da cabeça. Para mim isso
é o inferno. Quem reza demais acha que Deus não funciona
bem da cabeça. Acho que ele ficaria mais feliz se, em vez do
meu falatório, eu lhe oferecesse uma sonata de Mozart ou um poema
de Adélia...
Mas aí o alto-falante chamou o meu vôo,
tive de me despedir, e imagino que ela tenha ficado aflita, temerosa
de que Deus derrubasse o meu avião com um raio. Mal sabia ela
que Deus nem mesmo havia ouvido a nossa conversa, pois, cansado das
doidices dos adultos, ele foge sempre que vê dois deles conversando
e se esconde, disfarçado de criança."
( Rubem Alves -
"Biografia"
- 1933/**** )
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